3 de abril de 2025
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A Casa Assombrada da dona Luzia

Um simples passeio pela rua onde moro me levou ao passado, a uma casa assombrada e uma promessa ainda não cumprida...

Naquele dia, resolvi faltar trabalho — estava exausto. Então, somente por volta das 10 da manhã, levantei. Tomei um banho, preparei um café reforçado e depois fui até a varanda. Dali, observei a rua onde cresci e que costumava brincar quando criança. Senti-me bem nostálgico e por isso decidi dar uma volta pela rua.

Quase nada havia mudado: algumas casas reformadas, alguns modelos de carros mais atuais, um ou outro vizinho novo, porém, no mais tudo como antes, até o clima parecia o mesmo. Enquanto caminhava, seu Miguel me cumprimentou, espero que ele não seja rancoroso, pois aprontei muito com ele, eu e o Ney (filho do seu miguel). Cada canto me remetia aos anos incríveis que vivi naquela rua.

Andei um pouco mais e passei pela casa da dona Luzia, ainda abandonada, um esqueleto preso no tempo. Dona Luzia era uma senhora que morava só e eu julgava ser idosa, pois quando você tem oito anos, qualquer adulto mais velho que seus pais passa a ser idoso. Ela sofria de algum problema na perna, pois se locomovia com muita dificuldade. Às vezes eu a ajudava carregando as sacolas quando ela vinha da feira. Um misto de ajuda genuína e um pouco de interesse, uma vez que ela sempre me dava algum doce quando eu ajudava. Ela faleceu e a casa ficou abandonada.

Na época, quando criança, todos nós tínhamos medo da casa, e por consequência da dona Luzia, pois diziam que a casa dela era assombrada. Isso tudo porque na frente da casa havia dois pés de tajá enormes, e a lenda dizia que, à noite, viravam entidades para proteger a casa.

A casa era mesmo assombrada

Curioso, resolvi olhar mais de perto. Na infância nunca ousei, mas agora, por que não? E como um cachorro sem dono, atravessei o portão quebrado. Tudo estava em ruínas: mato alto, lixo acumulado, a porta apenas escorada e sem motivo aparente, resolvi entrar.

Era uma casa simples: uma sala em pedaços, um corredor estreito, um cômodo vazio e a cozinha nos fundos. Contudo o silêncio ali era diferente, diria que denso, como se o ar estivesse segurando a respiração junto comigo. Já ia saindo quando, ao olhar para o quarto, vi.

Vi uma senhora sentada na poltrona empoeirada do quarto. Senti calafrios, meus pés travaram e as pernas bambearam. Não conseguia me mexer. De fato a casa era mesmo assombrada.

Ela virou o rosto devagar em minha direção e, com uma voz que mal consegui ouvir, disse:

— Você é o Pedro, não é? Lembro de você correndo aqui na rua. Você até carregava as sacolas da feira para mim. Faz tempo, mas é você. Ficou um homem bem afeiçoado, nem parece aquele langanho que andava por essas bandas. Não tema. Só quero lhe fazer um pedido. Você faria um favor para mim?

Assenti com a cabeça.

Ela fez uma longa pausa e disse: Você lembra que diziam que a minha casa era assombrada e que havia entidades protegendo-a à noite? Concordei novamente somente mexendo a cabeça (o que mais eu poderia fazer?). Pois bem, ela continuou, era verdade, havia duas entidades que guardavam essa casa, que eu mesma invoquei e cultivei por anos nos pés de tajás. Mas me arrependi muito de tê-lo feito, pois acabei por ficar presa nessa casa por conta do chamado que fiz.

A promessa

Com algum esforço dona Luzia levantou da poltrona e veio em minha direção. Ela percebeu o meu desconforto e disse para não me preocupar que ela não me faria mal algum. Pronto para fazer o favor que preciso? Disse ela bem próxima a mim. Hurum!?!? Respondi.

Eu quero que você plante um pé de tajá aqui na frente da casa, bem na entrada e regue ele com água de sangue até ele pegar. Assim, poderei descansar e deixar esse local maldito.

Em pânico, só concordei.

— Vá — insistiu ela —, e plante logo.

Nem sei como saí dali.

Hoje, sempre que passo pela casa assombrada da dona Luzia, sinto aqueles olhos me seguindo, murmurando súplicas e maldições para que eu cumpra o pedido. Não sei se é loucura minha, mas sinto que, a cada dia que passa, a casa se torna mais viva… e minha promessa, mais urgente.

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