4 de abril de 2025
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Lucy

Insônia

Acordo suada, ofegante, destruída, parece que corri a São Silvestre sem a devida preparação. Passa um pouco das 3 da manhã e essa já é a terceira noite que isso me acontece… queria levantar, mas o medo me impele a ficar deitada na “segurança” da minha cama, embaixo das minhas cobertas. Eu me pergunto: medo de quê? Não há o que temer. Isso já está me prejudicando, preciso fazer algo a respeito… amanhã procuro ajuda, um médico talvez.

Viro para o outro lado da cama na tentativa de dormir, mas em vão; os minutos passam, o tempo se arrasta e não consigo dormir. O alarme toca… agora tenho que levantar e ir trabalhar, não sinto mais medo, mas como dissera: medo de quê?

Vamos Susana! levanta menina! Mais um dia de trabalho! Força! O dia demora imenso a passar e o cansaço das noites mal dormidas minam o meu corpo… ufa acabou o dia. Droga, esqueci de procurar um médico.

Lucy sendo gato

Chego em casa e Lucy (minha felina) me recebe sem muita animação, apenas um leve olhar desinteressado. Tento conseguir alguma atenção dela, mas sem sucesso. Os gatos são assim mesmo, não posso fazer muita coisa a respeito.

Abro a geladeira; lá está ela, minha cevada, abro-a e dou um grande gole, que coisa boa. Eu mereço isso depois de um dia interminável de trabalho. Tomo um banho, coloco a camisola, esquento o resto da pizza de ontem e vou pegar em um trabalho ainda aberto. Pronto, está bom agora. Hora de dormir.

Lucy já está acomodada na cama, bem no meio da cama, ela se acha a dona de tudo. Os gatos são notívagos e Lucy naturalmente não vai dormir agora, mas os felinos gostam de estar próximos aos seus donos para protegê-los e esse comportamento é uma forma de mostrar afeição pelo seu humano, então Lucy sempre fica onde eu estou.

Paralisia do sono

Espero ter finalmente uma noite tranquila de sono hoje.

Novamente acordo por volta das 3 horas da manhã, mas desta vez não consigo me mexer, pareço estar “pregada” na cama. O led verde do ar-condicionado ilumina o quarto, percebo então um vulto em baixo dele, não há uma forma definida, é algo como se fosse uma sombra.

Tento me mexer, gritar e nada, não consigo. Sinto uma presença próxima a mim, não sei dizer o que é. Sinto frio, muito frio, não sei porque, mas estou sem as minhas cobertas.

Agora a presença parece mais próxima e começo a sentir sua respiração, porém não vejo nada e o pior de tudo, ainda não consigo me mexer, estou totalmente paralisada.

O vulto junto ao ar-condicionado parece aproximar-se, está cada vez mais perto, agora se assemelha a uma barata, uma barata gigante e vindo em minha direção. Nesse momento sinto algo subir em minhas pernas, como se fossem perninhas andando em mim, subindo e subindo, são pegajosas, meladas, frias. A sensação de nojo e terror me sufocam. Agora estão na altura da minha coxa, a velocidade é menor, mas contínua.

Ouço um sussurrar, tento virar a cabeça para ver o que é, mas não consigo. A barata gigante agora se debruça na cama, e vem em minha direção, ela abre as asas e fica enorme, parece querer me abraçar, me envolver. Uma gosma, um muco cai em cima de mim e as perninhas já estão na altura da minha cintura… Meu Deus!

Não consigo mover um músculo. Minha pulsação está acelerada, sinto que vou desmaiar a qualquer instante, tento empurrar meu corpo para trás para me enterrar na cama e fugir daquele blatídeo, contudo sem sucesso, o que eu faço?

Livre

Finalmente consigo me mexer, mas não consigo gritar. Imediatamente passo a mão na barriga em direção as pernas para tirar de cima de mim seja lá o que fosse que subia pelo meu corpo, porém, não consigo encontrar nada.

Cato o celular em baixo do travesseiro e acendo a lanterna, olho para as minhas pernas, nada, nem um sinal de nada nojento que senti antes, o inseto gigante também sumira sem deixar vestígios.

Cubro-me por completo e tento me acalmar, estou ofegante, aterrorizada e nem arrisco sair de baixo do cobertor. Algo passa pelo meu pé, dou um grito, e de um pulo só saio correndo e me tranco no banheiro do quarto.

Silêncio total, não ouço nada, preciso ligar para alguém, droga deixei o celular no quarto. Encolho-me no canto do box e rezo para a “coisa” não vir atrás de mim e olha que faz muito tempo que perdi a minha fé.

Uma vez mais não consigo me mexer, embora dessa vez eu possa. Lucy, esqueci da gata, o que devo fazer? Ir lá ou deixá-la à própria sorte? Após algum tempo, encho-me de coragem e tento levantar, minhas articulações estalam quebrando o silêncio e a dormência toma conta de minhas pernas.

Desmaio

Arrasto-me até a porta que ao abrir range enchendo meu ser de apreensão, o que eu irei encontrar no quarto? A luz do banheiro ilumina o ambiente, não vejo nada de anormal no quarto. Sinto dedos passarem por minha perna. Tudo escurece, desmaio.

Acordo com Lucy se esfregando em mim e tenho a impressão que ela falou comigo em meus pensamentos, telepatia ou algo parecido, disse ter um recado da minha avó.

Minha avó, falecida, havia pedido para eu me mudar o mais breve possível, pois havia espíritos obsessores no apartamento e mesmo ela me protegendo, eram muitos. Nossa, devo mesmo procurar um médico, as alucinações estão ficando macabras.

Lucy continua falando

Após outro dia cansativo no trabalho chego em casa e Lucy me espera na porta. Você deve mudar hoje, murmura em minha cabeça a voz da gata. Olho para ela e silêncio, ela está no modo de não querer ser incomodada.

Pontualmente, às três horas, noite após noite tenho visões cada vez mais aterrorizantes, já fui a vários médicos, psicólogos e outros especialistas, contudo ainda não conseguiram resolver o meu problema.

Já faz seis meses da primeira visão e agora Lucy não para de falar na minha mente, às vezes é bom “ouvir” o que ela tem a dizer. Já parou com essa história de obsessores e me trata de forma meiga e carinhosa, mas não é normal, um gato não fala, temo estar ficando louca.

Através do circuito interno de TV, um grupo de residentes em psiquiatria observa Susana conversando com um gato, Dr. Rui explica que ela sofreu um abalo emocional muito grande com a morte da avó e em pouco tempo após a partida da matriarca, definhou por seis meses e foi encontrada desmaiada em seu quarto.

Desde então, cisma que esse gato fala com ela e passa a maior parte do dia deitada olhando para o teto, às vezes parece fugir de algo, fica acuada na cama e olhos petrificados. São alucinações, assim como as conversas com a gata.

Vamos a outro paciente agora…

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